Seu queixo era fino, correndo em um simples traço até as suas têmporas, que eram muito afastadas uma da outra. A linha se finaliza em um bico de viúva. Sua pele era rosada, e usava sempre uma pequena cartola vermelha. Dele podia-se dizer exatamente o mesmo, com exceção do seu queixo levemente arredondado e da jovem barba que crescia até metade da face. Usava o mesmo tipo de chapéu, uma pequena cartola vermelha, o que ajudava ainda mais para que ambos se assemelhassem a um coração. Vestiam uma túnica preta longa, e a barra da mesma deixava aparentes os seus pés.
Amaram-se o momento em que se encontraram na entrada do cemitério, no dia de finados. Corresponderam-se, admiraram-se, idolatraram-se. Queriam se conhecer melhor, cuidar um do outro.
Ambos foram visitar os pais. Ele, que nem se quer chegara a conhecê-los, descobriu que eles jaziam naquela pequena cidade na última semana. Ela, moradora de um orfanato na cidade vizinha, visitava os pais todos os anos.
A paixão aquecia-lhes o peito naquele frio (e típico) dia de finados, com a dor de ser órfão cada vez mais forte no peito, de não ter presente o apoio de uma mãe nem a braveza de um pai, sabendo que eles só queriam o melhor para os seus filhos. A dor de não ter alguém que lhe desse uma bronca por ter caído da bicicleta e que lhe fizesse o melhor dos curativos. A dor de saber que eles nunca teriam uma infância feliz ao lado de quem eles mais amavam e que, por uma infelicidade do destino, foram lhes tirado tão cedo.
Foram caminhando juntos, dissera ele que iria acompanhá-la primeiro. As rosas em sua mão tornavam-a mais encantadora... seus olhos chorosos brilhavam de encanto um pelo outro. Caminharam de mãos dadas. Estavam felizes, apenas por saber que havia alguém no mundo que compartilha da mesma história de vida; que havia alguém no mundo que leva duas rosas, uma para o pai e outra para a mãe, no dia de finados, ao túmulo dos mesmos.
Chegaram, enfim. E ele teve uma surpresa: os pais dela tinham o mesmo nome que o dos seus. “O que há de errado?”, ela perguntou. “Quando nascestes?”, foi a resposta. “14, fevereiro, de 16. Mas por quê?” Ela não estava entendendo mais nada. A cara de alarmado dele, de surpreso, a assustou. Ele pensou e pensou... Disse, então: “Somos irmãos. Gêmeos.”
O rosto dela se anuiu. As rosas se jogaram ao túmulo, em oferenda. Uma das rosas dele fizera o mesmo. A outra, ele estendera à sua frente, para ela pegar. Com um sorriso, ela o fez.
Então, beijou-a.
Um beijo fraterno, na cabeça, pela compaixão da dor. Pela vontade de tomar conta dela. Pela vontade de dizer algo, mas que não existia palavra. Um beijo que se fazia jurar, em simples palavras não ditas: “estarei com você daqui para sempre, irmã.”