Não me lembro da última vez que chorei.
Faz muito tempo, disso eu sei. Parece que hoje o que eu sinto suplanta até mesmo a tristeza de um choro alegre.
Felicidades que me proporcionam sorrisos, mas estes não alcançam a lágrima. Tristezas tão intensas que as lágrimas são indiferentes. Elas rolam internamente, o que é pior. Meu coração pulsa lágrimas sujas de sangue. Meu choro é vermelho e viscoso. O que passa em minhas veias são as emoções e [in]expiriências. Sou todo cicatrizado. Meu coração é irrugado, cheio de sobressalências e cavidades... marcas da experiente emoção que passa por ele ora sim, ora não, ora sim, ora não...
Aquele momento de batimento em que ele pulsa o sangue, lacrimoso sangue, nas veias e pára. Bate, e pára. Bate-pára. Incessantemente. É que ele se assusta a cada batida, em menos de um segundo. Assusta: respira fundo, prende a respiração. Assusta! Ofega... Assusta! Ofega... Assusta! Pára.
Meu coração parou.
Aquilo que eu sentia já não é o mesmo. O que eu sinto transcende até mesmo o sentimento. O que é "sentível".
Impossível para um pobre coração ter-de aguentar tanta dor, e tantos pensamentos... Porque o coração é um outro cérebro. Ele pensa. No que ele pensa, não sei. Não falo a língua do coração, apesar de sempre ele ter me dito o que fazer e eu entendi.
Agora ele é um vazio, algo mudo. Nada que possa se expressar. Nem pulsar.
Sou um ser que não sente mais o seu passado.