Vingança? Doce palavra... Pode explicar tudo o que existe, tudo o que está na sua frente, neste exato momento. É o que ele deseja: a vingança de uma vingança.
(...)
Ele só sabia de uma coisa: o passado não era mais o seu amigo. O passado ficara em seu lugar: no passado. Mas ele queria que o passado estivesse ao seu lado no presente. Que o passado fosse o seu grande aliado. O seu inimigo não es...tivesse com o seu passado. Seu passado se perdera no passado.
(...)
Pronto. A vida saiu daqueles dois, sentados na areia, de frente para o horizonte, de frente para a liberdade. A liberdade os pegara de surpresa: o que prendia a suas almas à matéria havia se esgotado. Acabou.
Os seus corpos foram envoltos ao oceano para todo o sempre: os lábios sempre unidos, em um milésimo de segundo absoluto que se fizera presente para todo o sempre.
O passado já não importava.
sábado, 8 de outubro de 2011
terça-feira, 28 de junho de 2011
Um cigarro
Ele estava caminhando. Como sempre, sozinho. Cansado de sua rotina, ele havia saído de casa no meio da tarde. Um dia sem aulas era um dia vazio; todos os dias estavam sendo vazios para ele. Não sabia explicar. Sentia falta de alguma coisa, a qual nem sequer sabia se se tratava de uma coisa em si ou de uma coisa dentro de si. Um computador novo, um amor novo? Não sabia; procurava encontrar essa coisa.
Olhou todos os computadores no shopping, e todas as pessoas. Não encontrou o que procurava. Caminhou, até o pé sangrar. E não se cansou. Estava apreciando o momento de liberdade que ele criara para si. Longe de casa, longe da família, dos problemas. Sabia que eles continuavam juntos, andando de mãos dadas à sua sombra, mas ignorou-os por uma tarde.
Mas escureceu. As sombras criadas pelas luzes do shopping ou da rua não são naturais, como a criada pelo Sol. Seus problemas tinham de dar a mão a alguém, e só poderia ser ele próprio. Ficou sentindo o vazio, tudo o que sentia era uma falta de sentimento. O quê? Não sabia.
Caminhou até a sua casa, pensando no seu dia. Tudo o que acontecera para piorar os seus sentimentos.
Logo no começo da tarde, encontrara um amigo de infância que dissera “Nossa, tá diferente! Engordou!” Ele não estava satisfeito com o seu peso havia algum tempo, e fazia dieta.
Sua mãe o ligara, perguntando quando ele ia voltar. “Na hora que der vontade.” “Mas é perigoso, meu filho.” “Não volto tarde.” “Mas eu tô precisando de você!” Apenas mais uma das chantagens da mãe, que sabia que o filho havia crescido e estava voando pelas próprias asas.
Na metade do seu passeio vespertino, encontrara a ex-namorada com uma mulher.
E, como se não bastasse, acabara de passar em frente a um boteco, daqueles sujos e cheio de idosos, mendigos e baratas, e um mendigo, que nem tinha todos os dentes, gritara: “Olha lá, o rapaz que beija homens!” E fingira uma ânsia de vômito.
Era o mesmo mendigo que, semanas atrás, havia o visto sair de uma boate gay com um rapaz e lhes pedira um trocado. Após tantos conflitos, decepções, frustrações e depressões, ele estava experimentando tudo, testando tudo, criando uma nova vida.
Mas faltava aquela coisa. O que seria? Não sabia.
Com o incidente do mendigo, ele se sentiu sem ar, sem ação, sem sentimentos. Vazio.
Então decidiu. Ao avistar uma padaria na outra esquina, pensou: “É ali mesmo.” Entrou na padaria, com toda a tristeza que sentia, e pediu um cigarro. O atendente se recusou a vender. Ele insistiu. “Desculpe, mas não vendemos cigarros para menores.” Então ele pôde realizar um sonho de sua adolescência: mostrar a sua carteira de motorista. “Me desculpe, mas a sua cara me dizia 16, não 19.” Acostumado, e querendo apenas o seu cigarro, ele perdoou o atendente, pegou o isqueiro do balcão, acendeu o seu cigarro e tragou.
Odiava cigarro. Abominava, sabia que fazia mal, matava. Mas naquele momento, era disso que precisava.
Ao dar o segundo trago, já havia passado o nojo e o mal-estar, e ele se sentiu infinito. Sentiu-se completo, como se não existisse mais nada. Acendeu-se, junto à brasa do cigarro, uma esperança de que aquela fase ia passar. O vazio poderia ser completado, um dia. Talvez não para sempre, mas por um bom tempo. Foi tragando, sentado no meio-fio da calçada, sentindo essa esperança invadir cada célula do seu corpo.
Tragou e tragou. Até que o cigarro acabou. Jogou o filtro no chão, coisa que abominava nos fumantes.
Levantou-se, e continuou o seu caminho para casa, agora completo com o sentimento da esperança.
Olhou todos os computadores no shopping, e todas as pessoas. Não encontrou o que procurava. Caminhou, até o pé sangrar. E não se cansou. Estava apreciando o momento de liberdade que ele criara para si. Longe de casa, longe da família, dos problemas. Sabia que eles continuavam juntos, andando de mãos dadas à sua sombra, mas ignorou-os por uma tarde.
Mas escureceu. As sombras criadas pelas luzes do shopping ou da rua não são naturais, como a criada pelo Sol. Seus problemas tinham de dar a mão a alguém, e só poderia ser ele próprio. Ficou sentindo o vazio, tudo o que sentia era uma falta de sentimento. O quê? Não sabia.
Caminhou até a sua casa, pensando no seu dia. Tudo o que acontecera para piorar os seus sentimentos.
Logo no começo da tarde, encontrara um amigo de infância que dissera “Nossa, tá diferente! Engordou!” Ele não estava satisfeito com o seu peso havia algum tempo, e fazia dieta.
Sua mãe o ligara, perguntando quando ele ia voltar. “Na hora que der vontade.” “Mas é perigoso, meu filho.” “Não volto tarde.” “Mas eu tô precisando de você!” Apenas mais uma das chantagens da mãe, que sabia que o filho havia crescido e estava voando pelas próprias asas.
Na metade do seu passeio vespertino, encontrara a ex-namorada com uma mulher.
E, como se não bastasse, acabara de passar em frente a um boteco, daqueles sujos e cheio de idosos, mendigos e baratas, e um mendigo, que nem tinha todos os dentes, gritara: “Olha lá, o rapaz que beija homens!” E fingira uma ânsia de vômito.
Era o mesmo mendigo que, semanas atrás, havia o visto sair de uma boate gay com um rapaz e lhes pedira um trocado. Após tantos conflitos, decepções, frustrações e depressões, ele estava experimentando tudo, testando tudo, criando uma nova vida.
Mas faltava aquela coisa. O que seria? Não sabia.
Com o incidente do mendigo, ele se sentiu sem ar, sem ação, sem sentimentos. Vazio.
Então decidiu. Ao avistar uma padaria na outra esquina, pensou: “É ali mesmo.” Entrou na padaria, com toda a tristeza que sentia, e pediu um cigarro. O atendente se recusou a vender. Ele insistiu. “Desculpe, mas não vendemos cigarros para menores.” Então ele pôde realizar um sonho de sua adolescência: mostrar a sua carteira de motorista. “Me desculpe, mas a sua cara me dizia 16, não 19.” Acostumado, e querendo apenas o seu cigarro, ele perdoou o atendente, pegou o isqueiro do balcão, acendeu o seu cigarro e tragou.
Odiava cigarro. Abominava, sabia que fazia mal, matava. Mas naquele momento, era disso que precisava.
Ao dar o segundo trago, já havia passado o nojo e o mal-estar, e ele se sentiu infinito. Sentiu-se completo, como se não existisse mais nada. Acendeu-se, junto à brasa do cigarro, uma esperança de que aquela fase ia passar. O vazio poderia ser completado, um dia. Talvez não para sempre, mas por um bom tempo. Foi tragando, sentado no meio-fio da calçada, sentindo essa esperança invadir cada célula do seu corpo.
Tragou e tragou. Até que o cigarro acabou. Jogou o filtro no chão, coisa que abominava nos fumantes.
Levantou-se, e continuou o seu caminho para casa, agora completo com o sentimento da esperança.
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Título vazio.
Não me lembro da última vez que chorei.
Faz muito tempo, disso eu sei. Parece que hoje o que eu sinto suplanta até mesmo a tristeza de um choro alegre.
Felicidades que me proporcionam sorrisos, mas estes não alcançam a lágrima. Tristezas tão intensas que as lágrimas são indiferentes. Elas rolam internamente, o que é pior. Meu coração pulsa lágrimas sujas de sangue. Meu choro é vermelho e viscoso. O que passa em minhas veias são as emoções e [in]expiriências. Sou todo cicatrizado. Meu coração é irrugado, cheio de sobressalências e cavidades... marcas da experiente emoção que passa por ele ora sim, ora não, ora sim, ora não...
Aquele momento de batimento em que ele pulsa o sangue, lacrimoso sangue, nas veias e pára. Bate, e pára. Bate-pára. Incessantemente. É que ele se assusta a cada batida, em menos de um segundo. Assusta: respira fundo, prende a respiração. Assusta! Ofega... Assusta! Ofega... Assusta! Pára.
Meu coração parou.
Aquilo que eu sentia já não é o mesmo. O que eu sinto transcende até mesmo o sentimento. O que é "sentível".
Impossível para um pobre coração ter-de aguentar tanta dor, e tantos pensamentos... Porque o coração é um outro cérebro. Ele pensa. No que ele pensa, não sei. Não falo a língua do coração, apesar de sempre ele ter me dito o que fazer e eu entendi.
Agora ele é um vazio, algo mudo. Nada que possa se expressar. Nem pulsar.
Sou um ser que não sente mais o seu passado.
Faz muito tempo, disso eu sei. Parece que hoje o que eu sinto suplanta até mesmo a tristeza de um choro alegre.
Felicidades que me proporcionam sorrisos, mas estes não alcançam a lágrima. Tristezas tão intensas que as lágrimas são indiferentes. Elas rolam internamente, o que é pior. Meu coração pulsa lágrimas sujas de sangue. Meu choro é vermelho e viscoso. O que passa em minhas veias são as emoções e [in]expiriências. Sou todo cicatrizado. Meu coração é irrugado, cheio de sobressalências e cavidades... marcas da experiente emoção que passa por ele ora sim, ora não, ora sim, ora não...
Aquele momento de batimento em que ele pulsa o sangue, lacrimoso sangue, nas veias e pára. Bate, e pára. Bate-pára. Incessantemente. É que ele se assusta a cada batida, em menos de um segundo. Assusta: respira fundo, prende a respiração. Assusta! Ofega... Assusta! Ofega... Assusta! Pára.
Meu coração parou.
Aquilo que eu sentia já não é o mesmo. O que eu sinto transcende até mesmo o sentimento. O que é "sentível".
Impossível para um pobre coração ter-de aguentar tanta dor, e tantos pensamentos... Porque o coração é um outro cérebro. Ele pensa. No que ele pensa, não sei. Não falo a língua do coração, apesar de sempre ele ter me dito o que fazer e eu entendi.
Agora ele é um vazio, algo mudo. Nada que possa se expressar. Nem pulsar.
Sou um ser que não sente mais o seu passado.
quarta-feira, 9 de março de 2011
Natureza Morta
Deparei-me com a natureza. Lá estava ela, no meio da cidade do Rio de Janeiro. Ou será que a cidade é quem está no meio da natureza? Não sei. Apenas sei que a natureza é que se fez. A natureza é autossuficiente. Não precisou nem de Deus para nascer. Só precisou dela mesma...
Enorme.
Gigantesca.
Onipresente.
Lá estava ela, abissalmente gigantesca. E lá estava eu, no alto de uma montanha, observando a fusão de natureza e cidade. De natureza e homem. Sim, de homem. Já não fazemos mais parte da natureza. Ela nos pariu, mas nós a renegamos. Tentamos nos criar, nos educar. Desastre?
Não soube nem dizer se as lágrimas que escorriam de meus olhos eram um reflexo das que escorriam em meu coração ou se era um mero efeito do vento fresco que lhes batia.
Tive vontade de ficar nu. Deitar na grama, subir em uma árvore. Nu. Completamente nu. Sem vergonha de meus pelos e de meu sexo. Onde houvesse seres humanos com a mesma vontade: nus, sem vergonha. Onde o sexo não fosse prazer e sim reprodução. Sem ódio, nem amor. Apenas um dia. Ou menos, uma hora.
Apenas sentir-me por uma hora como seria ser eu um milhão de anos atrás.
"Se eu fosse eu", disse Lispector. Seria parte da natureza, responderia.
Queria que a natureza me engolisse. Queria ser parte dela, ou ela ser parte de mim.
Vou ser enterrado nu.
Enorme.
Gigantesca.
Onipresente.
Lá estava ela, abissalmente gigantesca. E lá estava eu, no alto de uma montanha, observando a fusão de natureza e cidade. De natureza e homem. Sim, de homem. Já não fazemos mais parte da natureza. Ela nos pariu, mas nós a renegamos. Tentamos nos criar, nos educar. Desastre?
Não soube nem dizer se as lágrimas que escorriam de meus olhos eram um reflexo das que escorriam em meu coração ou se era um mero efeito do vento fresco que lhes batia.
Tive vontade de ficar nu. Deitar na grama, subir em uma árvore. Nu. Completamente nu. Sem vergonha de meus pelos e de meu sexo. Onde houvesse seres humanos com a mesma vontade: nus, sem vergonha. Onde o sexo não fosse prazer e sim reprodução. Sem ódio, nem amor. Apenas um dia. Ou menos, uma hora.
Apenas sentir-me por uma hora como seria ser eu um milhão de anos atrás.
"Se eu fosse eu", disse Lispector. Seria parte da natureza, responderia.
Queria que a natureza me engolisse. Queria ser parte dela, ou ela ser parte de mim.
Vou ser enterrado nu.
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Pour Homme
Engraçado são as relações humanas
E a vida, que é feita de contradições
Assim como o meu coração.
Mas quem foi que disse
Que contradição é confusão?
Não sei o que sinto
(apenas que é diferente)
Disseste tu que já o sentira
Mais uma semelhança entre nós
Que prova que
O diferente é normal;
O nosso diferente é igual.
E a vida, que é feita de contradições
Assim como o meu coração.
Mas quem foi que disse
Que contradição é confusão?
Não sei o que sinto
(apenas que é diferente)
Disseste tu que já o sentira
Mais uma semelhança entre nós
Que prova que
O diferente é normal;
O nosso diferente é igual.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Pensamentos de uma noite ébria.
Você é um nada, uma poeira cósmica de alguns centímetros, sua existência está reduzida a um planeta micro, você nem sabe se existe algum tipo de vida diferente da sua... E o pior: aqueles que vivem como você, só querem te comer. Literalmente, querem ver a sua carniça ou o seu dinheiro. Estamos nos multiplicando desgovernadamente, como se fôssemos uma bactéria vivendo dentro de algum organismo, que logo, logo será exterminada. E, antes que a exterminação aconteça, entenda que você, mesmo sendo um NADA, é importante. Pelo menos para os seus pais você é. E, caso não seja, tente ser importante ao menos para você mesmo! Viva o que você pode! Viva até onde você pode. VIVA. Porque um dia, isso tudo o que você conhece vai acabar...
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