domingo, 19 de dezembro de 2010

Coeur.

Seu queixo era fino, correndo em um simples traço até as suas têmporas, que eram muito afastadas uma da outra. A linha se finaliza em um bico de viúva. Sua pele era rosada, e usava sempre uma pequena cartola vermelha. Dele podia-se dizer exatamente o mesmo, com exceção do seu queixo levemente arredondado e da jovem barba que crescia até metade da face. Usava o mesmo tipo de chapéu, uma pequena cartola vermelha, o que ajudava ainda mais para que ambos se assemelhassem a um coração. Vestiam uma túnica preta longa, e a barra da mesma deixava aparentes os seus pés.

Amaram-se o momento em que se encontraram na entrada do cemitério, no dia de finados. Corresponderam-se, admiraram-se, idolatraram-se. Queriam se conhecer melhor, cuidar um do outro.

Ambos foram visitar os pais. Ele, que nem se quer chegara a conhecê-los, descobriu que eles jaziam naquela pequena cidade na última semana. Ela, moradora de um orfanato na cidade vizinha, visitava os pais todos os anos.

A paixão aquecia-lhes o peito naquele frio (e típico) dia de finados, com a dor de ser órfão cada vez mais forte no peito, de não ter presente o apoio de uma mãe nem a braveza de um pai, sabendo que eles só queriam o melhor para os seus filhos. A dor de não ter alguém que lhe desse uma bronca por ter caído da bicicleta e que lhe fizesse o melhor dos curativos. A dor de saber que eles nunca teriam uma infância feliz ao lado de quem eles mais amavam e que, por uma infelicidade do destino, foram lhes tirado tão cedo.

Foram caminhando juntos, dissera ele que iria acompanhá-la primeiro. As rosas em sua mão tornavam-a mais encantadora... seus olhos chorosos brilhavam de encanto um pelo outro. Caminharam de mãos dadas. Estavam felizes, apenas por saber que havia alguém no mundo que compartilha da mesma história de vida; que havia alguém no mundo que leva duas rosas, uma para o pai e outra para a mãe, no dia de finados, ao túmulo dos mesmos.

Chegaram, enfim. E ele teve uma surpresa: os pais dela tinham o mesmo nome que o dos seus. “O que há de errado?”, ela perguntou. “Quando nascestes?”, foi a resposta. “14, fevereiro, de 16. Mas por quê?” Ela não estava entendendo mais nada. A cara de alarmado dele, de surpreso, a assustou. Ele pensou e pensou... Disse, então: “Somos irmãos. Gêmeos.”

O rosto dela se anuiu. As rosas se jogaram ao túmulo, em oferenda. Uma das rosas dele fizera o mesmo. A outra, ele estendera à sua frente, para ela pegar. Com um sorriso, ela o fez.

Então, beijou-a.

Um beijo fraterno, na cabeça, pela compaixão da dor. Pela vontade de tomar conta dela. Pela vontade de dizer algo, mas que não existia palavra. Um beijo que se fazia jurar, em simples palavras não ditas: “estarei com você daqui para sempre, irmã.”

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Desabafo

Preciso expressar o que eu sinto, já disse isto. Mas não posso lhe dizer cara a cara, olho no olho. Preciso dizer para o mundo, mas não para você. Que você leia também, e entenda que é para você.
Que ideia que eu tinha de ti. Abaixo do zero, no conceito. E subiu consideravelmente, rapidamente. Me envergonho, me arrependo de pensamentos mesquinhos e baixos. Nada de horrível, nunca te desejei mal.
O que era, exatamente? Uma palavra que se encaixe em tudo que eu sentIA... Não existe. O mais próximo seria ciume. Misto com raiva, e até mesmo inveja. Que arrependimento, que vergonha... Como é difícil, aceitar que eu julguei sem saber, sem conhecer, sem nunca ter proferido uma palavra...
Meu medo é de que você se vá. Todo o tempo perdido, em vão. E nesse curto tempo em que (realmente) nos conhecemos, vi que te ensinei um pouco, mas você me ensinou muito mais. Nunca repetirei o que eu fiz, com ninguém. Darei chances a quem as circuntâncias não deram.
E hoje, o que sinto? O fogo de uma paixão, a ternura de uma amizade, a fraternidade de um irmão. A solidariedade de um ser humano, a compaixão de um avô, e, acima de tudo, a vontade de estar junto a ti.
Que feio, que nojo, que burro, que imaturo fui eu. Totalmente incondizente à minha personalidade. Mas o passado não se muda, e o futuro somos nós quem fazemos.
Perdoai-me, irmão. Porém, sou eu quem devo ME perdoar. Perdoai-me, eu.
Tempo... Apenas ele salvará.

T.B.H.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Mudanças

Estou na beira de um precipício, acoplado em uma asa-delta. Defronte a mim, apenas o horizonte. Este representa o novo; o que há por vir; futuro. Atrás, apenas há o passado. Eu represento o presente. E no presente momento, uma decisão: pulo ou não? Se pular, o passado não mais voltará. E se ficar, viverei neste presente, observando o futuro que eu poderia alcançar, sem nada mais poder fazer...

Almejo.
Saltar-irei...
Alcançar-irei...
Chegar-irei.
Olhar-irei para a montanha atrás de mim.
Não enxergá-la-irei, pela minha distância.
Mas eu sei que ela lá continuará para sempre,
E que eu nunca mais nela pisar-irei.
Pois irei no futuro. Ei no passado.

Almejei. Saltei. Alcancei. Cheguei.
E no final a morte. Já disse Agatha.

T.B.H.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Carta Mórbida, por mim.

"Juiz de fora, 20 de Setembro de 2010, 18:12

Pense na morte, caro leitor. Veja-a como uma coisa boa; como a libertação do seu espírito perante o seu corpo; como o fim de todos os problemas; como o auge da sua vida. Eu disse “pense”, e não “sinta”. Pois se você sentir a morte, não a sua, óbvio, mas a de um ente querido, você vai sofrer. E o seu coração vai virar o seu cérebro. E você pensará com ele. Pensará na morte como a vilã.
E, no momento, o caro escritor pensa com o coração. Muitos em sua volta fazem o mesmo, com o coração apertado pela perda de uma jovem pessoa de mesma idade. Os mais velhos que estão em sua volta, fazem o mesmo por pensarem na injustiça que se é viver mais do que o outro. Não é verdade? É totalmente antinatural, se é que a palavra existe. Mais velhos primeiros, primeiro a avó, depois o pai, e então o filho. Claro, já que ninguém é pai da própria mãe.
Pra quê vivemos, se no final haveremos de morrer? “Não tem explicação”, já diria a falecida e saudosa Cássia Eller. Há vida após a morte? Às vezes o autor diz que não, quando o seu ceticismo fala mais alto. Como uma lâmpada que vai de encontro ao chão, espatifa-se e queima é um corpo. Sem mais utilidade, estragado, pronto para ser jogado ao lixo (humano) subterrâneo.
O tal escritor já disse tudo o que precisava para expressar o seu sentimento, e você se perguntará: “E o final?” Mas sou eu quem vos faço tal pergunta: E o final?

Só digo, com lágrimas no coração e um aperto nos olhos: Para os mortos, terra. Para os vivos, frente."
T.B.H.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Decassílabos Brancos

"Coração em brasa, a flecha feriu.
Vejo-me apaixonado por ti, mas
Pelo certo amor já estou possuído.
O que fazer: a dúvida ou a certeza?"

Por T.B.H.

sábado, 21 de agosto de 2010

Carta seguinte

Encontrei sua outra carta. Amor, como sinto a sua falta. Passei meses, sem nenhum vestígio teu. Não olhava para as suas roupas esquecidas em meu armário, nem as minhas roupas que você me deu.
Tive uma festa. Precisei usar uma roupa mais "elegante". Foi então que vi, aquele paletó que você me deu no Natal em que ia passar com sua família. E dentro dele estava, no bolso interno que eu tanto gostava... sua carta.

"Philadelphia, 16 de julho de 2010
Quem foi que disse que eu me fui para sempre? Cá estou, bem perto de ti. Amando-te, mas não podendo tê-lo. Espero que um dia eu possa me explicar. No entando, só podemos nos comunicar através de cartas. Eu leio as que você me manda, e as guardo em meu peito.
Nosso passado fora lindo; não me esquecerei dele nunca, por mais forte que o tempo seja. Mas quero que você saiba que estou bem. Que nunca vou abandonar você. Quando o tempo passar, ficaremos juntos outra vez. Eu amo você.

De sua amada, a mera 'remetente'."

Isso não foi um adeus, então. Meu amor, estarei te esperando. Publicarei, a seguir, uma carta que escrevi no desespero de sua ausência. Descobrirá que ela não se realizou. E com a notícia de sua existência, não se realizará.

D.B.S.

domingo, 1 de agosto de 2010

Sinopse

Segue a sinopse de uma inspiração própria para o que teria conteúdo para um livro. Ainda não saiu da sinopse.

"De repente, tudo ficou escuro.
Então, no mesmo de repente, abri os olhos. Estava deitado no chão da minha cozinha. Levantei-me. Não fazia ideia de como havia chegado ali. Minha garganta doía um pouco, exatamente em uma linha horizontal que ia do lado direito ao esquerdo. Virei-me para a janela, e foi quando eu vi. Quando eu me vi. Deitado no chão, os olhos azuis vazios, encarando o nada, e minha cabeça rodeada de uma enorme poça de sangue que vazara de minha garganta (que, de fato, combinava com a decoração vermelho dos móveis, mas isso não importa). No mesmo lugar onde me doía.
Tentei me sacudir, mas minhas mãos simplesmente atravessaram o meu corpo. Tentei mergulhar de volta a ele, mas simplesmente dei de cara no chão.
Jazia junto a mim, na minha mão, minha faca de cortar carne, suja de sangue até a metade do seu cabo branco. Estava segurando-a de um jeito diferente do meu peculiar modo de segurar qualquer tipo de coisa. A janela estava aberta, o que era estranho para um dia tão frio no Rio de Janeiro. Cheguei até o parapeito, e havia apenas escuridão abaixo do oitavo andar.
Por quê? O que acontecera? Não me lembrava de jeito nenhum. Até onde eu conseguia saber, nunca pensara em me matar. Não, não fora suicídio. Mas por que alguém me mataria? Quem? Já não bastava as perguntas me assolarem durante meus 28 anos de vida, me assolavam nos meus vinte e oito segundos de morte."

sábado, 24 de julho de 2010

Pra você...

Pra você guardei o amor que nunca soube dar. O amor que tive e vi... não, isso tá muito manjado. Vou apenas dizer que dedico esta carta a você, meu grande, verdadeiro e eterno amor. Você sabe, e temos provas, que isso nunca acabará. Pelo simples fato de sermos parte um do outro, desde que o tal 'amor' chegou. Quando ao certo chegou, nunca saberei dizer. Mas ele está aqui, em algum lugar, pulsando junto ao meu sangue e chegando em seu coração por meio de gestos e palavras.
Carinho, ternura, confiança e "ausência de vergonha" nos resume. Claro, o resumo do resumo do resumo do resumo (...). Mas é isso que nos faz melhor e que sempre fará e o que sempre farei que isso sempre aconteça. Entenda isso como uma promessa que já fora prometida há muito, amor!
As palavras são poucas, eu sei. E são também carinhosas e ternas, transmitindo (ou tentando) confiança pra você. A "sem-vergonhice"? Somente quando formos dormir em nossa cama...
Pra você dedico todo o meu amor e desejo toda a felicidade. A minha felicidade é você. Obrigado pela sua pouco singela e importantíssima existência.

Com todo o amor, pra você, pra sempre seu,
EU.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Onde eu deveria estar: saudade ou desejo?

Saudade ou desejo de lá estar?
N
ão sei ao certo dizer
Só sei que hipérbato há nessa poesia.
Que, poesia, nem é.

Quanto tempo passou?
Quando esse tempo voltará?
Ele voltará?
Por que se foi?

Ah, terrinha abençoada
pelo triste e indomável
consum-capital-ismo

Que para sempre estarei
a te amar e visitar
Até que para sempre estarei junto a ti.

A chance. Uma chance. Há chance?

A paixão que sinto pelos teus olhos castanhos, teu cabelo que cheira a flor e teus lábios que sorriem discretos e me dizem palavras sem sentido, é indescritível. Não há palavra, em nenhuma das línguas humanas, que descreva tal fulgor e desejo de possuí-la por apenas alguns segundos... talvez minutos... talvez horas... talvez um dia inteiro...
Por que não podemos simplesmente domar nosso pequenino órgão que bombeia vida nas veias? Por que não simplesmente apagar-te da vida? Por que não um beijo, e seguimos em frente com nossas vidinhas mundanas e monótonas e pacatas e estúpidas e pseudo-felizes?
E tu nunca verás esta declaração. E se ver, nunca imaginará que é para ti. Por que tem de ser assim, minha bela amada? Se nada disso do que temos, queremos.
É agora totalmente teu este sentimento, menina bonita, pois os 'passados' já foram esquecidos.
Adeus, até breve, de seu (até então) amigo, D.B.S.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Philadelphia, 14 de julho de 2010, 01h47min

As cartas que você deixou em cima da mesa, são apenas contas vencidas? Não. Havia uma, e nela dizia que deveríamos seguir em frente. Que nunca mais teria o seu amor. Que ninguém a amaria como eu amei (e amo!).
O destinatário de tal carta cá se encontra escrevendo outras cartas para comunicar ao mundo sobre a sua (in)existência. O remetente foi-se para nunca mais esbarrar-se no passado que tanto marcou.
E hoje, nesta sombria, tediosa e úmida madrugada, declaro aberta a temporada de caça a inspirações que serão buscadas em ti, amada remetente.

Com amor e carinho,
Derick Bauthar Snoona