Ele estava caminhando. Como sempre, sozinho. Cansado de sua rotina, ele havia saído de casa no meio da tarde. Um dia sem aulas era um dia vazio; todos os dias estavam sendo vazios para ele. Não sabia explicar. Sentia falta de alguma coisa, a qual nem sequer sabia se se tratava de uma coisa em si ou de uma coisa dentro de si. Um computador novo, um amor novo? Não sabia; procurava encontrar essa coisa.
Olhou todos os computadores no shopping, e todas as pessoas. Não encontrou o que procurava. Caminhou, até o pé sangrar. E não se cansou. Estava apreciando o momento de liberdade que ele criara para si. Longe de casa, longe da família, dos problemas. Sabia que eles continuavam juntos, andando de mãos dadas à sua sombra, mas ignorou-os por uma tarde.
Mas escureceu. As sombras criadas pelas luzes do shopping ou da rua não são naturais, como a criada pelo Sol. Seus problemas tinham de dar a mão a alguém, e só poderia ser ele próprio. Ficou sentindo o vazio, tudo o que sentia era uma falta de sentimento. O quê? Não sabia.
Caminhou até a sua casa, pensando no seu dia. Tudo o que acontecera para piorar os seus sentimentos.
Logo no começo da tarde, encontrara um amigo de infância que dissera “Nossa, tá diferente! Engordou!” Ele não estava satisfeito com o seu peso havia algum tempo, e fazia dieta.
Sua mãe o ligara, perguntando quando ele ia voltar. “Na hora que der vontade.” “Mas é perigoso, meu filho.” “Não volto tarde.” “Mas eu tô precisando de você!” Apenas mais uma das chantagens da mãe, que sabia que o filho havia crescido e estava voando pelas próprias asas.
Na metade do seu passeio vespertino, encontrara a ex-namorada com uma mulher.
E, como se não bastasse, acabara de passar em frente a um boteco, daqueles sujos e cheio de idosos, mendigos e baratas, e um mendigo, que nem tinha todos os dentes, gritara: “Olha lá, o rapaz que beija homens!” E fingira uma ânsia de vômito.
Era o mesmo mendigo que, semanas atrás, havia o visto sair de uma boate gay com um rapaz e lhes pedira um trocado. Após tantos conflitos, decepções, frustrações e depressões, ele estava experimentando tudo, testando tudo, criando uma nova vida.
Mas faltava aquela coisa. O que seria? Não sabia.
Com o incidente do mendigo, ele se sentiu sem ar, sem ação, sem sentimentos. Vazio.
Então decidiu. Ao avistar uma padaria na outra esquina, pensou: “É ali mesmo.” Entrou na padaria, com toda a tristeza que sentia, e pediu um cigarro. O atendente se recusou a vender. Ele insistiu. “Desculpe, mas não vendemos cigarros para menores.” Então ele pôde realizar um sonho de sua adolescência: mostrar a sua carteira de motorista. “Me desculpe, mas a sua cara me dizia 16, não 19.” Acostumado, e querendo apenas o seu cigarro, ele perdoou o atendente, pegou o isqueiro do balcão, acendeu o seu cigarro e tragou.
Odiava cigarro. Abominava, sabia que fazia mal, matava. Mas naquele momento, era disso que precisava.
Ao dar o segundo trago, já havia passado o nojo e o mal-estar, e ele se sentiu infinito. Sentiu-se completo, como se não existisse mais nada. Acendeu-se, junto à brasa do cigarro, uma esperança de que aquela fase ia passar. O vazio poderia ser completado, um dia. Talvez não para sempre, mas por um bom tempo. Foi tragando, sentado no meio-fio da calçada, sentindo essa esperança invadir cada célula do seu corpo.
Tragou e tragou. Até que o cigarro acabou. Jogou o filtro no chão, coisa que abominava nos fumantes.
Levantou-se, e continuou o seu caminho para casa, agora completo com o sentimento da esperança.
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