terça-feira, 28 de junho de 2011

Um cigarro

Ele estava caminhando. Como sempre, sozinho. Cansado de sua rotina, ele havia saído de casa no meio da tarde. Um dia sem aulas era um dia vazio; todos os dias estavam sendo vazios para ele. Não sabia explicar. Sentia falta de alguma coisa, a qual nem sequer sabia se se tratava de uma coisa em si ou de uma coisa dentro de si. Um computador novo, um amor novo? Não sabia; procurava encontrar essa coisa.

Olhou todos os computadores no shopping, e todas as pessoas. Não encontrou o que procurava. Caminhou, até o pé sangrar. E não se cansou. Estava apreciando o momento de liberdade que ele criara para si. Longe de casa, longe da família, dos problemas. Sabia que eles continuavam juntos, andando de mãos dadas à sua sombra, mas ignorou-os por uma tarde.

Mas escureceu. As sombras criadas pelas luzes do shopping ou da rua não são naturais, como a criada pelo Sol. Seus problemas tinham de dar a mão a alguém, e só poderia ser ele próprio. Ficou sentindo o vazio, tudo o que sentia era uma falta de sentimento. O quê? Não sabia.

Caminhou até a sua casa, pensando no seu dia. Tudo o que acontecera para piorar os seus sentimentos.

Logo no começo da tarde, encontrara um amigo de infância que dissera “Nossa, tá diferente! Engordou!” Ele não estava satisfeito com o seu peso havia algum tempo, e fazia dieta.

Sua mãe o ligara, perguntando quando ele ia voltar. “Na hora que der vontade.” “Mas é perigoso, meu filho.” “Não volto tarde.” “Mas eu tô precisando de você!” Apenas mais uma das chantagens da mãe, que sabia que o filho havia crescido e estava voando pelas próprias asas.

Na metade do seu passeio vespertino, encontrara a ex-namorada com uma mulher.

E, como se não bastasse, acabara de passar em frente a um boteco, daqueles sujos e cheio de idosos, mendigos e baratas, e um mendigo, que nem tinha todos os dentes, gritara: “Olha lá, o rapaz que beija homens!” E fingira uma ânsia de vômito.

Era o mesmo mendigo que, semanas atrás, havia o visto sair de uma boate gay com um rapaz e lhes pedira um trocado. Após tantos conflitos, decepções, frustrações e depressões, ele estava experimentando tudo, testando tudo, criando uma nova vida.

Mas faltava aquela coisa. O que seria? Não sabia.

Com o incidente do mendigo, ele se sentiu sem ar, sem ação, sem sentimentos. Vazio.

Então decidiu. Ao avistar uma padaria na outra esquina, pensou: “É ali mesmo.” Entrou na padaria, com toda a tristeza que sentia, e pediu um cigarro. O atendente se recusou a vender. Ele insistiu. “Desculpe, mas não vendemos cigarros para menores.” Então ele pôde realizar um sonho de sua adolescência: mostrar a sua carteira de motorista. “Me desculpe, mas a sua cara me dizia 16, não 19.” Acostumado, e querendo apenas o seu cigarro, ele perdoou o atendente, pegou o isqueiro do balcão, acendeu o seu cigarro e tragou.

Odiava cigarro. Abominava, sabia que fazia mal, matava. Mas naquele momento, era disso que precisava.

Ao dar o segundo trago, já havia passado o nojo e o mal-estar, e ele se sentiu infinito. Sentiu-se completo, como se não existisse mais nada. Acendeu-se, junto à brasa do cigarro, uma esperança de que aquela fase ia passar. O vazio poderia ser completado, um dia. Talvez não para sempre, mas por um bom tempo. Foi tragando, sentado no meio-fio da calçada, sentindo essa esperança invadir cada célula do seu corpo.

Tragou e tragou. Até que o cigarro acabou. Jogou o filtro no chão, coisa que abominava nos fumantes.

Levantou-se, e continuou o seu caminho para casa, agora completo com o sentimento da esperança.

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